CARTA ABERTA À POPULAÇÃO
Caros habitantes, vizinhos e amigos,
Já alguma vez pensámos no valor daquilo que temos e que, tantas vezes, só o reconhecemos quando o perdemos?
A qualidade do ar que respiramos, a água que bebemos, a tranquilidade das nossas aldeias, dos campos que nos rodeiam, dão bem-estar às nossas famílias e são o bem mais precioso que coletivamente possuímos. É por isso que devemos estar atentos e informados perante a possibilidade da instalação de uma fábrica de produção de biometano nas proximidades das nossas comunidades.
Não se trata de ser contra o progresso, nem de rejeitar as energias renováveis. O desenvolvimento só é verdadeiramente sustentável quando protege as pessoas e respeita o ambiente.
Mas afinal, o que é uma fábrica de biometano?
É uma instalação industrial que utiliza resíduos orgânicos para produzir um gás renovável. Este processo, geralmente denominado digestão anaeróbia, ocorre através da decomposição da matéria orgânica por microrganismos, na ausência de oxigénio. Consoante a instalação, podem ser utilizados resíduos agropecuários, estrumes, restos alimentares, restos de animais, lamas ou outros resíduos orgânicos. O biogás produzido é depois tratado e purificado para obter biometano, um gás com características semelhantes às do gás natural, que é utilizado como fonte de energia.
À primeira vista, parece uma solução positiva para o ambiente. Quando bem concebida e devidamente controlada, pode contribuir para o aproveitamento de resíduos.
Mas existe uma pergunta legítima: quais são as consequências de instalar uma unidade industrial deste tipo tão perto das nossas casas? Riscos que não podemos ignorar!
Qualidade do ar e os odores: os resíduos orgânicos podem provocar odores intensos e persistentes, desde o transporte, à receção e o armazenamento. Todos já presenciámos camiões de materiais com odores fortes nas estradas e derrames do seu conteúdo. Agora imaginem camiões com estas características a passar constantemente pelas nossas estradas.
Quem quer viver com receio de abrir as janelas da sua própria casa? De não poder secar a roupa ao ar livre? Quem quer deixar de desfrutar de convívios ao ar livre, de passear tranquilamente sem preocupação? Além disso os odores persistentes e as poeiras podem causar desconforto, náuseas, dores de cabeça e problemas respiratórios graves.
A água e os solos, um património que devemos proteger: o tratamento de resíduos orgânicos exige sistemas adequados de impermeabilização, drenagem, armazenamento e gestão de efluentes. Se ocorrerem fugas, derrames ou falhas no tratamento, poderá existir risco de contaminação dos solos e das águas superficiais e subterrâneas. Estamos preparados para abdicar da qualidade dos alimentos, que muitos ainda produzem nas suas hortas?
Perigo das fugas de gás e dos acidentes industriais: o biogás contém metano, um gás inflamável. Pode haver risco de explosão e contaminação do ar.
Ruído e trânsito constante: uma unidade industrial desta natureza implica a circulação frequente de camiões, o funcionamento de equipamentos mecânicos e operações de carga e descarga. Dependendo da dimensão da instalação, estas atividades podem aumentar o ruído, o tráfego pesado, a degradação das vias públicas e o incómodo para quem vive nas proximidades.
Desvalorização do património e desertificação das aldeias: quem vai querer comprar, construir ou restaurar casa? Muitos de nós, se tivermos alternativas vamos pensar em sair… Mas como? A habitação está caríssima! Quem compraria a nossa casa, num local desconfortável para viver? Ninguém!
Não se trata de medo. Trata-se de responsabilidade.
Não queremos espalhar alarmismo, nem afirmar que todos os projetos de biometano são perigosos. Queremos sim, que os riscos sejam avaliados com seriedade, que os impactos sejam estudados antes da instalação e que nenhuma preocupação legítima seja ignorada.
Não queremos viver num ambiente degradado, não queremos que, no futuro nos digam que já é tarde para agir.
Porque o ambiente não é apenas uma paisagem. É aquilo que respiramos, bebemos, cultivamos e transmitimos às gerações seguintes.
Porque o desenvolvimento de uma região deve ser avaliado não apenas pelo investimento que atrai, mas também pela qualidade de vida que proporciona aos seus habitantes.
A nossa voz conta!
Apelamos a todos os habitantes para que procurem informação, participem nas consultas públicas, coloquem questões às entidades responsáveis e acompanhem de perto todas as decisões relacionadas com este projeto.
Independentemente das opiniões de cada um, temos algo em comum: todos queremos viver num lugar seguro, saudável e digno.
E é possível procurar soluções para os desafios energéticos sem esquecer que, por detrás de cada projeto, existem pessoas, famílias e comunidades inteiras.
Não deixemos que a indiferença decida aquilo que a informação, o diálogo e a participação de todos podem ajudar a proteger.
Hoje, temos a oportunidade de pedir esclarecimentos, exigir garantias e defender o nosso futuro.
Uma população informada é uma população mais protegida.
— MOV.AP